terça-feira, 22 de agosto de 2017

REENCONTRO DE ENEIAS E DIDO


Per sidera iuro,
per superos, et si qua fides tellure sub ima est,
invitus, regina, tuo de litore cessi.


"Não longe daqui se mostram uns campos por toda parte
– Os Campos das Lágrimas, assim os chamam por este nome.
Aqui, aqueles que o duro amor matou com cruel veneno,
As veredas secretas escondem e ocultam-se em volta de uma floresta de mirtos;
Os cuidados não deixam nem a própria morte.
Que mostra as feridas do cruel filho,
E Evadne e Pasífae, Laodamia vai como companheira destas.
Ceneu, outrora mancebo e agora mulher, é restituído pelo destino à antiga forma.
Entre estas andava errante na grande floresta a Fenícia Dido,
recente da ferida; logo que o herói troiano parou junto dela e a
conheceu por uma sombra escura, como quem vê ou julga ter visto a lua surgir
por entre nuvens no princípio do mês, derramou lágrimas e falou-lhe com um doce amor:
Ó infeliz Dido, pois uma verdade suspeita me assaltava
de que tu te tinhas extinguido, acabando a existência com o ferro!
Ai! Eu para ti fui a causa da morte! Juro, ó rainha, pelas estrelas
E pelos deuses do céu e pela fé, se alguma existe na profundezas da terra,
que foi contrariado que me retirei do seu litoral.
Mas os mandados dos deuses que me obrigam agora a ir por estas sombras,
Pelos lugares incultos, de aspecto imundo, e por esta noite profunda
me obrigam com as suas ordens; nem eu pude crer
que eu te podia causar uma tão grande dor com a minha retirada.
Para o passo, e não te retires da minha vista.
De quem foges? É esta a última vez que te falo com autorização do destino."

Eneida. Virgílio. Livro Livro VI

Nec procul hinc partem fusi monstrantur in omnem
lugentes campi: sic illos nomine dicunt.
Hic, quos durus amor crudeli tabe peredit,
secreti celant calles et myrtea circum
silva tegit; curae non ipsa in morte relinquunt.

His Phaedram Procrimque locis, maestamque Eriphylen
crudelis nati monstrantem volnera, cernit,
Evadnenque et Pasiphaen; his Laodamia
it comes, et iuvenis quondam, nunc femina, Caeneus,
rursus et in veterem fato revoluta figuram.
Inter quas Phoenissa recens a volnere Dido

errabat silva in magna; quam Troius heros
ut primum iuxta stetit adgnovitque per umbras
obscuram, qualem primo qui surgere mense
aut videt, aut vidisse putat per nubila lunam,
demisit lacrimas, dulcique adfatus amore est:

Infelix Dido, verus mihi nuntius ergo
venerat exstinctam, ferroque extrema secutam?
Funeris heu tibi causa fui? Per sidera iuro,
per superos, et si qua fides tellure sub ima est,
invitus, regina, tuo de litore cessi.

Sed me iussa deum, quae nunc has ire per umbras,
per loca senta situ cogunt noctemque profundam,
imperiis egere suis; nec credere quivi
hunc tantum tibi me discessu ferre dolorem.
Siste gradum, teque aspectu ne subtrahe nostro.
Quem fugis? Extremum fato, quod te adloquor, hoc est.'

Eneida. Virgílio. Livro VI

domingo, 20 de agosto de 2017

SONETO XXX


São tantos os dilemas deste mundo;
Tão fáceis as estradas tortuosas;
Perdemo-nos das retas luminosas
No rápido passar de um segundo.

Seguimos cada canto vagabundo!
Sereias muito pouco virtuosas;
Deixamos fenecer as nossas rosas,
Atrás de um fantasma moribundo.

À míngua de firmeza em nossa vida,
Corremos para os braços do perigo,
Reféns das nossas próprias tentações.

Devemos recordar em cada lida:
Ainda que tivermos sem abrigo,
De nunca descobrir os corações.

Eliton Meneses

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

SONETO XXIX


O eterno se achegou com ironia,
Me deu o amargo féu e a doce cana;
Levou-me inerte à porta do nirvana,
Depois partiu qual mera fantasia.

Senti a mais perfeita sintonia;
O vento que arrebata uma cabana;
Tentei seguir contrário à caravana,
Fiquei sem luz no sol do meio-dia.

Eu vi no alto céu o abismo infindo;
No mar revolto, a barca destroçada
Do velho pescador de alma humana.

O símbolo sagrado foi bem-vindo,
Pois quase aquela força disfarçada
Tornou-se do meu peito uma tirana. 

Eliton Meneses

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

SAUDADE


Não tenho verdade;
Prefiro não tê-la.
Deus tenha piedade,
Por que fui querê-la?
Chegou sem maldade,
Passei para vê-la.
Não era amizade,
Inútil contê-la.
Fiquei nesta idade
A ouvir estrela.
Me chamo saudade,
Depois de perdê-la.

Eliton Meneses 

domingo, 13 de agosto de 2017

SONETO XXVIII


Tenho rezado muito mas em vão;
The black bird veio sem pedido;
Assoviou-me coisas sem sentido,
Aboletado triste em meu portão.

As linhas tortas seguem pela mão,
Escorrem pelo leito bem comprido,
Deságuam neste coração partido,
Que sofre atordoado feito um cão.

Pensei que havia ainda esperança;
Em meio a tal procela, desvalido; 
The raven tão somente disse não. 

Porém, ainda há luz em nossa andança; 
Quem sabe mais um conto proibido
Dos muitos livros feitos neste chão. 

Eliton Meneses

terça-feira, 1 de agosto de 2017

AS CALÇADAS


"A calçada ideal é aquela que oferece condições de um caminhar seguro e confortável, proporcionado pela escolha de pisos adequados, ausência de obstáculos, sem degraus entre os terrenos, com o mobiliário urbano e a vegetação dispostos de forma a não atrapalhar o pedestre."

"toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado" (Declaração Universal dos Diretos Humanos)

Há muitos anos, fugindo da situação política incerta do Brasil, após o fiasco da eleição de Fernando Collor, fui-me refugiar no país irmão – Portugal – tendo lá vivido os melhores anos da minha vida. E foi mesmo lá que aprendi o verdadeiro significado da palavra “calçada”, pois para os lusitanos trata-se de uma obra de arte, artesanal, que consiste na aposição meticulosa de pedras polidas e justapostas sobre os passeios para lhes dar uma feição mais nobre e senhorial. Pois bem. No tempo em que nós brasileiros mantínhamos certa proximidade da língua-mãe, quando então denominávamos por cá de passeios os espaços por onde as pessoas trafegavam, limitados por um batente que os separava das ruas e vias pelas quais transitavam os carros e os animais, também adotamos o costume de adorná-los com pedras representando desenhos e formatos harmoniosos, tornando-os calçadas, como suas similares portuguesas. Hoje, na gíria do português falado no Brasil, chamam-se calçadões.
Na nossa cidade, no saudoso final do século XIX, o passeio mais famoso, para onde convergiam as pessoas nos fins de semana, para se colocarem à mostra, lançando as modas no vestir trazidas da Europa, chamava-se de público, hoje transmudado numa bela praça, com largas alamedas, e frondosas árvores, e reproduções de estátuas gregas clássicas, e um elegante quiosque ao centro, o qual prestava-se para receber as pessoas, no decorrer do dia, para um convescote ou para saborearem bolos, doces, geléias, sorvetes e sucos expostos em uma pequena montra; à noite, depois que partiam as famílias, acolhia os dândis, os janotas cheios de maneirismos e as cortesãs, para noitadas regadas a abundantes doses de absinto. A cidade, então alumiada por lampiões, revestia-se de singelo encanto provincial. Os coches e as carroças jamais estacionavam sobre os passeios.
Nos tempos atuais, a cidade não possui mais a graça dos tempos passados. Conforme afirmou certo pesquisador, já fomos a segunda cidade mais bonita do mundo e só perdíamos para a cidade de Tour na França (não ratifico a veracidade da informação). Mantivemos, no entanto, o ar de província, que se agrava pela arrogância, pelo egoísmo desmedido e pela absoluta falta de educação, que o fortalezense faz questão de ostentar com pedantismo e falso ar de superioridade. Nossas calçadas não mais servem para que os transeuntes caminhem por elas confortavelmente, visto que estão abarrotadas de carros estacionados, motos atravessadas, entulhos e todo tipo de sujidades, além de serem mal pavimentadas, forçando as pessoas a delas apearem e se lançarem às ruas também repletas de carros e motos que se deslocam com precipitação e velocidade perigosas.
De largas que eram, foram encolhidas e transformadas em uma nesga por vezes quase imperceptível, premida junto às paredes das edificações, consentindo a passagem de uma pessoa apenas. Em alguns trechos, os carros maiores, além de ocuparem toda a calçada, ainda encostam-se aos muros, bloqueando o pequeno espaço por onde o pedestre haveria de passar, obrigando-o a caminhar pela pista de rolamento destinada aos veículos. Ontem, como me vi premido a descer da calçada e caminhar pelo asfalto, porque não tinha espaço para eu andar dentre os carros estacionados, tive que assistir a um verdadeiro espetáculo de buzinadas que um motorista mais estúpido resolveu me proporcionar. Absurdo! O divulgado espírito acolhedor do cearense, sobretudo no que respeita ao povo da capital, é apenas quimera!
Faço, reiteradamente, tais críticas e um opositor resolveu confrontar-me, para dizer que os motoristas não podem ser privados do direito de estacionar seus carros ou suas motos. Respondi que ele estava certo, mas ressalvei que quanto ao direito de estacionar não lhe é lícito fazê-lo em qualquer lugar, em detrimento do direito das pessoas de poderem-se locomover com segurança e confiabilidade. As calçadas nunca foram destinadas a estacionamento de qualquer tipo de veículo ou condução, mas existem, desde há muito, para o tráfego de pessoas. Se permitirmos que os carros ocupem as ruas e as calçadas, por onde andarão os pedestres? Se não existem lugares destinados ao estacionamento dos veículos, que se proteste perante o Poder Público para que os construa (o problema é que se existirem tais estacionamentos públicos, eles deverão cobrar e a mor parte dos que possuem carros não querem pagar pela utilização de estacionamentos); o que é inadmissível é que se retire dos particulares a liberdade de ir e vir sem atropelos ou perigo à saúde. É dever do Estado zelar pela liberdade de locomoção de todos os cidadãos, conforme se lê na Constituição Brasileira. Afinal, sabe-se, os seres humanos são bem mais importantes que as máquinas. É de lembrar-se que todo motorista, em algum momento, terá de descer do seu carro e, assim, transformar-se em pedestre e, por isso, vai precisar atravessar ruas, vai precisar deslocar-se pelas calçadas, vai precisar transitar como qualquer outro ser humano foi preparado para fazer. Não precisamos ser um povo sem noção da realidade!
Existem, além disso, os que se postam à espera de transportes coletivos, os quais se aglomeram ao longo das calçadas e sequer se afastam para que os que desejam passar possam fazê-lo sem precisarem esgueirar-se numa dança quase macabra, para poderem caminhar sem embaraços. Caso alguém que porte muletas ou se locomova sobre uma cadeira de rodas, ou que conduza uma criança, ou esteja a amparar um idoso ou pessoa com certas necessidades especiais pretenda passar haverá de se expor ao risco de disputar espaço dentre os veículos em movimento na rua, em flagrante desrespeito às suas integridades físicas. As pessoas que caminham em grupo de três ou mais, de igual modo, juntam-se lado a lado, impedindo que quem lhes venha atrás possa desvencilhar-se e seguir seu caminho. E mais: ficam incomodadas se quem tiver pressa pedir licença ou demonstrar que quer ultrapassá-las; tentam atrapalhar a todo custo, ou não se afastando para permitir a passagem, ou mantendo-se num passo lento e demorado para retardar o apressado. Eis a hospitalidade cearense!
Há que se falar, ainda, dos patinadores, skatistas e ciclistas que em determinadas zonas da cidade ocupam boa parte dos espaços das calçadas pondo em risco a segurança de quem por elas caminha. Por vezes, parece que surgem de repente, como se viessem de algum lugar incerto e remoto, o que assusta e desestabiliza a concentração e o equilíbrio dos transeuntes. Uma querida amiga acaba de relatar um acidente que sofreu em conseqüência da imprudência de um desses skatistas, o qual perdendo o controle do brinquedo, quase a fez despencar de uma calçada alta, com uma criança nos braços, por ter pisado em falso sobre o indigitado objeto que lhe chegou pela retaguarda sem que ela esperasse ou percebesse. A mãe do adolescente autor do delito, achou a cena engraçada e divertiu-se à farta com a peraltice do filho adolescente. Que gracinha, como costumava dizer uma falecida apresentadora de televisão!
Tenho que destacar, da mesma forma, os comerciantes que instalam seu comércio nas calçadas, espalhando mesas, bancos, carrocinhas de lanches, fogareiros de churrascos etc. Certa feita, deparando-me com tal situação, pedi ao dono do pequeno bar que afastasse seus objetos para que eu pudesse passar (até porque havia uma bicicleta estacionada sobre a calçada que obstruía minha passagem) e ele me respondeu que eu se quisesse passar que andasse pela pista dos carros, porque aquele era “o comércio dele”. Estávamos na avenida Santos Dumont e eu tive que sujeitar-me a isso, malgrado o perigo de ser colhido por algum veículo em disparada. No mesmo dia, entretanto, denunciei-o ao órgão competente e, no dia seguinte, ele já havia recolhido a mobília para o interior do bar e estacionado sua bicicleta em lugar menos inconveniente para os transeuntes. De outra vez, vi um outro comerciante afirmar, quando alguém reclamou pela calçada ocupada, que ele “era um pai de família” e que “tirava dali seu sustento”. Fiquei pensando se os outros pais de família que por ali passavam também não tinham direito à sobrevivência, porquanto eram obrigados a se exporem ao risco de serem atropelados...Onde será que aprendemos que somos os titulares de todos os direitos e os demais são submetidos apenas às obrigações?
Por fim, e por mais risível que pareça, há os famosos atletas de fim de semana, que em seus exercícios físicos e caminhadas nas calçadas em volta das praças, dos estádios ou ao longo da orla marítima, parecem aviltados quando alguém, em simples deslocamento de uma parte a outra da cidade, pisa em seus “domínios”. Lançam então, prontamente, olhares reprovadores ou críticos como se somente os que estão praticando exercícios físicos pudessem transitar por aqueles locais sem terceiros para incomodar tão saudáveis práticas. Ninguém merece, como se diz no pitoresco linguajar dos mais jovens!
Para arrematar, deixo como reflexão: por que precisamos de uma lei para regular a ocupação das calçadas, de fiscalização para verificar o cumprimento dessa mesma lei, da imposição de multa por eventual descumprimento dessa norma, de atritos com os demais, se sabemos que estamos agindo errado e em detrimento dos outros cidadãos que também pagam seus impostos e têm direito de usufruir do espaço público como nós? Por que perdemos a capacidade de nos envergonhar por tais atitudes e por não termos a humildade de reconhecer que estamos errados quando avançamos sobre o espaço dos outros? Por que deixamos de reconhecer que a nossa liberdade termina onde começa a do outro? Por que recriminamos o direito dos outros de se indignarem com as nossas falhas, como se fôssemos perfeitos?
Penso, por vezes, que eu deva repetir como o grande Fernando Pessoa:
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Francisco GOMES

segunda-feira, 31 de julho de 2017

FRASE DO MÊS


"Outubro começou como os meses costumam começar: a sua entrada é, no fundo, discreta e completamente silenciosa. Sem sinais nem fogueiras, os meses insinuam-se, de um modo que facilmente escapa à atenção de quem não esteja muito alerta. Na realidade, o tempo não tem cortes, não há trovões nem tempestades no início de um novo mês ou de um novo ano; e mesmo na aurora de um novo século só os homens soltam foguetes e repicam os sinos." (A Montanha Mágica. Thomas Mann) 

"Der Oktober brach an, wie neue Monate anzubrechen pflegen, - es ist an und für sich ein vollkommen bescheidenes und geräuschloses Anbrechen, ohne Zeichen und Feuermale, ein stilles Sicheinschleichen also eigentlich, das der Aufmerksamkeit, wenn sie nicht strenge Ordnung hält, leicht entgeht. Die Zeit hat in Wirklichkeit keine Einschnitte, es gibt kein Gewitter oder Drommetengetön beim Beginn eines neuen Monats oder Jahres, und selbst bei dem eines neuen Säkulums sind es nur wir Menschen, die schießen und läuten." (Der Zauberberg. Thomas Mann)

sábado, 29 de julho de 2017

SONETO XXVII


Canto a terra querida em que nasci;
minha aldeia, morada de minh'alma;
o meu porto seguro, a minha Palma;
o meu solo vermelho em que cresci.

Canto a terra singela onde aprendi
que na vida é preciso agir com calma,
pois o tempo supera até o trauma
dos horrores do tempo em que vivi.

Minha terra deitada em verde vale;
a igreja, a coluna e a velha casa,
o cachorro e os sonhos que perdi.

Não há outra paragem que se iguale;
o meu peito inda queima feito brasa,
desde aquele momento em que parti.

Eliton Meneses

terça-feira, 25 de julho de 2017

HISTÓRIAS DE MENINO




A primeira menção ao nome do Mardone França li no livro História de Coreaú, do Leonardo Pildas, onde ele consta dentre as personalidades ilustres da Palma como estatístico, mestre e doutor em Bioestatística e professor universitário (cf. p. 556). Anos depois, graças às redes sociais, tive o prazer de trocar uns dedos de prosa virtuais com ele e, em meio à conversa, pedi que ele enviasse algum texto de sua lavra para o Blog da APL, a nossa academia de letras rebelde da Palma. Pouco depois, Mardone me enviou um conto, publicado no Blog da APL, que foi um dos mais singelos e mais bem escritos que já li na vida: Tupã, o anjo negro, sobre o simpático cão da família Carneiro de França, nos seus tempos de Coreaú. Tupã faria uma ótima dupla (casal, quiçá), decerto regulando em grandeza d'alma, com a cachorra Baleia. Em seguida vieram outras peças memoráveis, como o Conto de Setembro, o Banco do Jaime e Açudes, serra e Meral, todos publicados no Blog da APL e, prontamente, já selecionadas para uma antologia de contos da Palma que ainda está no prelo. Além dos publicados no Blog, Mardone me enviou um conto que, se tivesse que escolher um para plagiar, seria este o escolhido: O gavião da tarde. Um conto que nos representa a todos nós, crias da Palma contraditoriamente tão pobre e tão rica ao mesmo tempo; pobre de bens materiais, mas rica de memórias e sentimentos. É óbvio que, com tamanho talento literário, Mardone não poderia ficar de fora da academia rebelde da Palma, e logo se tornou um membro-honorário — honorário e não efetivo, gize-se, apenas por estar, à época, afastado fisicamente das terras palmenses.
Confesso que às vezes sou um tanto generoso ao apreciar o trabalho literário alheio. Às vezes elogio, até como estímulo, algo que, de repente, sequer valor literário possa ter. Mas isso, absolutamente, não acontece com os contos e as crônicas do Mardone. Tenho três grandes referências do conto, uma internacional, Tchekhov; uma latinoamericana, Borges; e uma nacional, Machado de Assis. Agora, tenho também uma referência regional, que atende pelo nome de Mardone França, que, por acaso, nasceu na mesma quadra da nossa velha Palma. O gavião da tarde não deixa nada a dever à Gaivota, do Tchekhov, nada a dever ao Aleph, do Borges, nada a dever à Missa do Galo, do Machado de Assis.         
Quando passei por Natal, em meados de 2016, encontrei o Mardone e ele me anunciou que estava trabalhando no projeto de publicar um livro de contos e eis que, um ano depois, chega às minhas mãos Histórias de menino, uma coletânea de contos e crônicos — encabeçada, obviamente, por O gaivão da tarde —, que reúne quinze capítulos de pura literatura, com tudo a que uma autêntica obra literária pode abranger, como talento, erudição e sensibilidade, com um diferencial particularmente especial, o cenário telúrico da nossa Palma como pano de fundo de quase todas as peças, ou seja, as Histórias de menino são, sobretudo, as impressões do Mardone França — o Poeta das Luzes, por conta do seu talento fotográfico — sobre o espaço-tempo da sua infância na Palma. Um livro escrito com esmero e maestria, um livro que honra a tradição do universal pelo regional, abeberando-se na sabedoria do velho Tolstoi, que dizia: "Pinta tua aldeia e pintarás o mundo." Um livro, enfim, verdadeiramente literário que honra a academia rebelde da Palma — e credencia seu autor, ipso facto, à condição de membro-efetivo da APL — e que honra, sobretudo, a velha Palma, torrão natal que carregamos conosco, sempre, por mais longe que nós vamos.
Quando soube da ideia do livro não pude conter o entusiamo e reforçar amiudadamente o estímulo para que ele saísse o quanto antes. E eis que ora o temos diante de nós. Histórias de menino nasce com a feição de grande literatura, com o selo de clássico da literatura regional e com a marca — de ferrar gado —, ao final de cada capítulo, como assinatura atávica, de cada um dos filhos de seu Carneiro e dona Quinoca...  
O livro é uma obra de arte do começo ao fim. Não se pode olvidar da capa e da contracapa, que trazem uma pintura da Arimá Viana, esposa do autor, retratando a Matriz da Palma e o vale do Coreaú permeado pelas reminiscências do menino que se fez homem, sem deixar de ser menino. Li o livro de um fôlego só. Aposto que quem ler O gaivão da tarde, o primeiro conto, não parará mais até concluir o livro. Borges dizia: "Que outros se jactem do que escrevem, eu me orgulho do que eu leio." Histórias de menino é um desses orgulhos que tenho de ter lido, uma poesia em prosa das memórias de um menino da Palma, assim como você, como diria Belchior, assim como eu, da Palma — do Coreaú, tanto faz —, paradoxalmente, às vezes tão pequena e efêmera, mas às vezes tão grande e eterna...

segunda-feira, 24 de julho de 2017

PAIS & FILHOS



Sempre que finalizo um romance, um conto, uma crônica interessante... gosto de tecer algumas considerações ou mesmo fazer uma breve resenha crítica sobre a obra, até como uma forma de assimilar melhor o enredo do livro ou mesmo na tentativa de fazer um estudo crítico, bem como, quiçá, incentivar outros a também se interessarem pela leitura!
Pais & Fihos é uma obra do realismo russo, da segunda metade do Século XIX (1862), de autoria de Ivan Turguêniev, escritor que popularizou o termo niilismo, corrente filosófica que apresenta uma visão cética e radical dos valores religiosos, políticos e sociais, que, inclusive, influenciou a filosofia de Nietzsche e alguns romances de Fiódor Dostoievsky, meu escritor favorito!
Como sugere o próprio título do romance, Pais & Filhos trata do conflito de gerações impulsionado pelas mudanças políticas e sociais que estavam acontecendo na Rússia oitocentista da época. Fazendo uma rápida digressão histórica do momento: ocorria o fim do regime de servidão na Rússia, estando o camponês (servo) sob a tutela do proprietário de terras. A organização política e social da época ainda era feudal, diferente das organizações políticas ocidentais.
A história começa com dois jovens, o médico niilista Bazárov e seu escudeiro e grande amigo Arkádi, chegando à casa de Nikolai Pietróvitch, pai de Árkádi, no interior da Rússia, nos arredores da cidadezinha conhecida como Marina. Bázarov se considera um niilista, aquele que não crê em nada, que se recusa a seguir regras e autoridades e é avesso às manifestações sentimentais. Arkádi, embora mantenha certa fidelidade à ideologia do amigo, se mostra mais sentimental e corresponde melhor às manifestações afetivas do pai. Nicokolai Pietróvitch, assim como seu irmão, tio de Arkádi, Pável Pietróvitch, constituem parte da elite aristocrata ultrapassada da época. Suas atitudes antiquadas entrarão em choque com a ideologia de Bázarov, fato que contribuirá para o completo desentendimentos entre eles e para nutrir o sentimento de ódio de Pável pelo amigo do sobrinho e hóspede de Nikolai. Assim, haverá sempre em toda a narrativa esse conflito geracional entre o velho e o novo. Os amigos visitam os pais de Bazárov em uma outra cidade do interior da Rússia. Vassíli Ivánovitch e Arina Vassílievna são aqueles pais amáveis que fazem de tudo para agradar o filho; porém, Bazárov não se permite manifestações de afetos paternais. Nessas visitas, os dois conhecem a viúva Ana Serguêievna e sua irmã caçula Kátia e, a partir daí, um sentimento mais puro do amor faz com que os dois, por um momento, se deixem levar, embora Bazárov não se renda por completo aos seus sentimentos interiores por Ana e acabe no fim da narrativa tendo um final trágico, fruto talvez das suas próprias convicções. Por outro lado, Arkádi se entrega ao amor e terá uma vida próspera com Kátia!
Assim é que um livro de apenas 200 páginas sintetiza de forma tão pungente a realidade das relações familiares, a discrepância de duas gerações distintas e, após sua publicação, contribuiu para a mobilização social e o arrebatamento niilista que influenciaria muuitas gerações posteriores, perpassando grandes obras de renomados escritores russos como Os irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoievsky. 
Enfim, fica a dica de leitura introspectiva!

Auricélia Souza Fontenele
Professora de Literatura

quinta-feira, 20 de julho de 2017

NATACHA


O olhar vago no horizonte denunciava que Natacha já não era a mesma. Perdera o companheiro, aquele com quem compartilhara quase tudo na vida. Três anos de namoro. Dez anos de convivência. Agora estava só. O cãozinho também estava triste. Era Luiz quem passeava com ele todas as tardes. Sentia falta do dono. Assim como Natacha, quase não comia ultimamente. De repente, um enorme vazio se abateu sobre ambos. Há menos de dois meses, Luiz percorria animado as ruas do bairro todo fim de tarde. 
Foi tudo muito rápido. As dores no estômago, a consulta, os exames, a internação... Em menos de três semanas Luiz foi enterrado. Numa tarde nublada de agosto, alguns familiares e os poucos amigos compareceram ao velório. Um amigo com feição de profeta errante declamou o Salmo 91 e o caixão desceu para a cova funda.    
Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo à sombra do Onipotente descansará. (...)
Luiz era ateu. Em nenhum momento do seu suplício recorreu à religião. No começo, imaginou tratar-se de uma simples gastrite. Quando soube da metástase, com uma peculiar calma estoica, passou a organizar suas pendências financeiras e a tentar consolar a companheira.
O cadáver estava duro e frio. Muito diferente daquele Luiz há pouco tão cheio de vida. Natacha beijou-lhe a face e não sentiu sua alma presente. O ser humano muda muito quando morre. Sem alma, é como um tronco de árvore oco largado no chão.  
Natacha era espírita kardecista. A doutrina de fato trouxe-lhe bastante alívio. Se fosse ateia não saberia como suportar tamanha dor. A despeito do consolo espiritual, a saudade apertava. O apartamento estava vazio. O cãozinho agora passava o dia deitado, num canto. Luiz foi um bom marido. Natacha não tinha coragem de abrir o guarda-roupa dele. Toda manhã parecia ouvir uns passos... Numa carta psicografada, Luiz disse que estava bem. Duas semanas depois da morte do dono, o cãozinho também não resistiu. Natacha acumulava a sua segunda perda num intervalo de tempo tão curto. O apartamento ficou ainda mais vazio. Toda manhã, além dos passos do Luiz, passou a ouvir também o latido do cãozinho.
Natacha quase não saía do apartamento. Não estava com disposição para ir ao centro espírita. Não tinha com quem conversar. Não tinha mais nem um bicho de estimação para acariciar. Continuou, por alguns dias, servindo a água e a ração do cãozinho... Pediu licença no trabalho. Passou a ler mais intensamente a Bíblia, o Livro dos Espíritos, um livro de autoajuda... Mas não manteve nenhuma leitura. Precisava viajar. Adquirir um cachorro novo. Luiz costumava dizer que a vida não tinha um sentido predeterminado. Cada qual deveria atribuir a ela o sentido que melhor lhe aprouvesse. Era chegada a hora de atribuir um novo sentido à sua vida. Precisava resgatar o gosto pelas pequenas coisas. Precisava aguar as plantas que estavam murchando, conversar com a melhor amiga, visitar novamente o orfanato... Precisava perder o medo e resolver adotar aquela criança que lhe abriu os braços na última vez em que foi lá... 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

SONETO XXVI


Como as águas do rio as coisas correm,
Arrastadas no vão da correnteza;
Por qualquer afluente, sem beleza,
Muitas barcas perdidas até morrem. 

Velam noites compridas que decorrem
Sob o canto disforme da tristeza;
Singram vales desertos na certeza
De que todos se agarram, mas escorrem.

Poucas coisas no mundo têm raízes;
Todos vão à procura de descanso,
Quando finda a jornada sem grandeza. 

O que fica do bando de infelizes,
 À deriva na curva de um remanso,
É o espólio da terna natureza.

 Eliton Meneses

quarta-feira, 12 de julho de 2017

REFORMA TRABALHISTA



Entendo o sujeito ser contra o PT, ser contra a Dilma, ser contra o Lula... Agora, o sujeito ser contra o trabalhador (ele também um trabalhador) e aplaudir as conquistas do patrão, aí já é um ato de desvairada loucura... Se a criatura não tem nem noção de como funciona a relação capital-trabalho, devia pelo menos parar de passar vergonha nas redes sociais...