domingo, 26 de agosto de 2012

O LICEU QUE CONHECI



Cheguei em Fortaleza num fim de tarde ensolarado de começo de inverno de 1993. Meu primeiro ano letivo na capital não foi dos melhores. Entre o sonho do pixote matuto de 15 anos e a realidade mediou um imenso abismo. Matricularam-me no 1º ano noturno do UV-9 da 4ª Etapa do Conjunto Ceará. Tinha que apanhar dois ônibus para aturar professores desestimulados e alunos envoltos no cansaço da longa jornada de trabalho, tendo ainda que recusar diariamente a oferta de drogas na entrada e na saída da escola. No segundo bimestre consegui uma transferência para o Mariano Martins, no Bairro Henrique Jorge. Morando no Conjunto Novo Mondubim, reduzi consideravelmente a distância. Passei a depender somente de um ônibus. 
Logo me dei conta de que, apesar do diploma de 1º grau trazido de Coreaú, minha condição era de semianalfabeto. Lia e escrevia precariamente e ainda nutria uma certa ojeriza pelos números. Ainda assim, desbanquei misteriosamente a aluna destaque da turma; logo em seguida, um outro novato também me desbancou com implacável desdém. Não fiz qualquer esforço para reassumir a hegemonia da sala, encabulado com a volumosa enciclopédia que o sujeito sempre ostentava, carimbada com o nome da Escola Técnica Federal do Ceará, onde ele também estudava.  
Findei o ano letivo com notas regulares e aprendizado minguado. Matriculado automaticamente para o ano seguinte, preocupei-me com a permanência na escola. Vali-me de uma tia professora primária que, numa visita, me havia dito conhecer a diretora do Liceu do Ceará. Impressionei-me com o nome. Havia de ser uma escola razoável. Poucos dias depois, subia animado a escadaria que dava para os umbrais do centenário colégio.    
Não encontrei no Liceu a educação que esperava. De toda sorte, dentre os públicos, era um dos melhores estabelecimentos. Muitos dos nossos professores também ensinavam nos colégios particulares do Centro e Aldeota, embora encarassem o Liceu com notório descompromisso.
Na biblioteca empoeirada, quase nenhum livro e muitos retratos emoldurados de ex-alunos ilustres: Barão de Studart, Bezerra de Menezes, Clóvis Beviláqua, Eleazar de Carvalho, Farias Brito, Gustavo Barroso, Juvenal Galeno, Raimundo Cela, Rodolfo Teófilo (...), de tempos mais remotos; além de Belchior, Fausto Nilo, Tito de Alencar (...), de décadas mais recentes. Quase toda a história do Ceará, enfim, havia passado pelo velho colégio. Enchi-me de entusiasmo.
No entanto, encontrei um Liceu diferente. Da elite da cidade só remanesceram os velhos quadros. No Liceu que conheci, os alunos vinham de bairros afastados, de onde também vinham professores cansados, de ônibus, de trem, de bicicleta, a pé. A quase totalidade dos alunos sequer pensava em prestar vestibular, preocupados muito cedo em arranjar emprego no comércio ou na indústria.
Fui levando o ano sem muita cobrança, aprendendo os rudimentos de cada disciplina e obtendo boas médias. Conhecendo gente dos quatro cantos da cidade. Duas irmãs bonitas que caminhavam todo dia uma partida de quadras para apanhar o trem na estação do Otávio Bonfim rumo a Maracanaú; um sujeito que se dizia meu parente mas nunca havia ouvido falar em Coreaú; um moço solícito que jogava muita bola e morava no bairro do Dendê; uma jovem magrela que se dizia abastada, embora morasse num cortiço decadente do Carlito Pamplona; um moreno roliço e educado das bandas da Vila Manoel Sátiro (...)
Conheci gente do povo, preocupada somente em sobreviver dignamente. Pessoas que encaravam o Liceu como uma escola qualquer da rede pública de ensino. Pessoas que não se davam ao trabalho sequer de erguer a cabeça para contemplar os velhos quadros empoeirados do passado cantado em verso e prosa.
Da praça da Jacarecanga costumava seguir a pé até o Centro, para observar uns livros usados, apanhar algum folheto das escolas particulares e sorrir com as piadas do palhaço Caçarola, na Praça José de Alencar. Num desses passeios, descobri um concurso de bolsas de uma escola para o ano seguinte. Resolvi fazê-lo, sem muita esperança de conseguir desconto considerável. Mas, para minha surpresa, disseram-me que havia conseguido uma bolsa integral, bastando pagar, diante da crise do colégio, o material escolar, correspondente a 20% da mensalidade - R$ 19,64 (dezenove reais e sessenta e quatro centavos). Acabava de ingressar no ensino particular. Tinha um ano para me preparar para o vestibular.  
No ano seguinte se comemoraria o sesquicentenário do Liceu do Ceará. Uma pauta extensa de eventos estava sendo organizada, inclusive o lançamento de um livro: "O Liceu Que Conheci", do Prof. Boanerges Sabóia. O nome de todos os alunos do ano de 1995 foi relacionado no livro. Os colegas do ano anterior, praticamente todos, figuraram no livro; no entanto, eu, por pouco, fiquei de fora. Saí da história, para entrar na vida!               

Um comentário:

Epa!!! disse...

É caro colega e imortal da Academia Palmense de Letras. Brilhante não só a História do Liceu. Como a sua também. Parabens aos dois...