quinta-feira, 20 de julho de 2017

NATACHA


O olhar vago no horizonte denunciava que Natacha já não era a mesma. Perdera o companheiro, aquele com quem compartilhara quase tudo na vida. Três anos de namoro. Dez anos de convivência. Agora estava só. O cãozinho também estava triste. Era Luiz quem passeava com ele todas as tardes. Sentia falta do dono. Assim como Natacha, quase não comia ultimamente. De repente, um enorme vazio se abateu sobre ambos. Há menos de dois meses, Luiz percorria animado as ruas do bairro todo fim de tarde. 
Foi tudo muito rápido. As dores no estômago, a consulta, os exames, a internação... Em menos de três semanas Luiz foi enterrado. Numa tarde nublada de agosto, alguns familiares e os poucos amigos compareceram ao velório. Um amigo com feição de profeta errante declamou o Salmo 91 e o caixão desceu para a cova funda.    
Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo à sombra do Onipotente descansará. (...)
Luiz era ateu. Em nenhum momento do seu suplício recorreu à religião. No começo, imaginou tratar-se de uma simples gastrite. Quando soube da metástase, com uma peculiar calma estoica, passou a organizar suas pendências financeiras e a tentar consolar a companheira.
O cadáver estava duro e frio. Muito diferente daquele Luiz há pouco tão cheio de vida. Natacha beijou-lhe a face e não sentiu sua alma presente. O ser humano muda muito quando morre. Sem alma, é como um tronco de árvore oco largado no chão.  
Natacha era espírita kardecista. A doutrina de fato trouxe-lhe bastante alívio. Se fosse ateia não saberia como suportar tamanha dor. A despeito do consolo espiritual, a saudade apertava. O apartamento estava vazio. O cãozinho agora passava o dia deitado, num canto. Luiz foi um bom marido. Natacha não tinha coragem de abrir o guarda-roupa dele. Toda manhã parecia ouvir uns passos... Numa carta psicografada, Luiz disse que estava bem. Duas semanas depois da morte do dono, o cãozinho também não resistiu. Natacha acumulava a sua segunda perda num intervalo de tempo tão curto. O apartamento ficou ainda mais vazio. Toda manhã, além dos passos do Luiz, passou a ouvir também o latido do cãozinho.
Natacha quase não saía do apartamento. Não estava com disposição para ir ao centro espírita. Não tinha com quem conversar. Não tinha mais nem um bicho de estimação para acariciar. Continuou, por alguns dias, servindo a água e a ração do cãozinho... Pediu licença no trabalho. Passou a ler mais intensamente a Bíblia, o Livro dos Espíritos, um livro de autoajuda... Mas não manteve nenhuma leitura. Precisava viajar. Adquirir um cachorro novo. Luiz costumava dizer que a vida não tinha um sentido predeterminado. Cada qual deveria atribuir a ela o sentido que melhor lhe aprouvesse. Era chegada a hora de atribuir um novo sentido à sua vida. Precisava resgatar o gosto pelas pequenas coisas. Precisava aguar as plantas que estavam murchando, conversar com a melhor amiga, visitar novamente o orfanato... Precisava perder o medo e resolver adotar aquela criança que lhe abriu os braços na última vez em que foi lá... 

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